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As lições que a Câmara de Teresina deveria aprender com Jane Jacobs

Como a grande maioria das cidades brasileiras, a capital do Piauí foi pensada em torno de um modelo rodoviarista, que priorizou o modal rodoviário em detrimento da diversidade na estrutura de transportes e deslocamentos pelo país. A tendência mais acentuada desta forma de planejamento urbano aconteceu na década de 50, durante o governo de Juscelino Kubitschek.

11/07/2021 23h33
Por: Redação
As lições que a Câmara de Teresina deveria aprender com Jane Jacobs

 

O delírio desenvolvimentista do governo JK designou praticamente todo  o orçamento destinado à pasta de infraestrutura e transportes para construção de rodovias e também para o projeto piloto de Brasília. Foi JK, inclusive, que trouxe ao país a indústria automobilística, o que também ajuda a explicar o motivo do Brasil ter virado um verdadeiro canteiro de obras durante seu mandato.

Até aqui há quem possa pensar que os carros são os grandes vilões, mas não é essa a ideia que quero passar ao trazer este retrospecto. Na realidade, a crítica é focada no padrão limitado de planejamento urbano que concentrou esforços e recursos em um único modelo de deslocamento, deixando outras formas de transportes com uma infraestrutura mais tímida. Para se ter uma ideia, tanto dinheiro investido nem sequer significou grande qualidade nas ruas das cidades ou das estradas do país, pois muitos são os relatos de trechos em péssimas condições, gerando acidentes, constrangimentos e aumentando até mesmo os custos com carregamento de mercadorias, o que acaba encarecendo-as para os consumidores finais.

É neste caldeirão de discussões que surgem as ideias de Jane Jacobs, que embora tenha nascido nos Estados Unidos, firmou-se como uma das maiores críticas às tendências urbanísticas da década de 50, que estavam em alta no mundo inteiro e influenciaram também o Brasil.

Apesar do tema sobre mobilidade urbana ser destaque por conta da CPI dos Transportes na Câmara de Teresina, as lições que podem ser extraídas do legado de Jacobs não se resumem a este assunto, não obstante esteja tudo de alguma forma entrelaçado.

As críticas às já mencionadas tendências urbanísticas da década de 50, produziram algumas reflexões importantes. Uma delas é sobre o papel das ruas e calçadas, que não servem apenas para o “desenho das ruas”, como parecem querer os gestores de Teresina, mas também para zelar pela segurança.

Para Jacobs, é fundamental que a infraestrutura de uma cidade dê suporte à movimentação dos pedestres e à interação das pessoas com prédios e edifícios, permitindo o máximo de circulação humana nos trajetos. Ocupar e desfrutar dos espaços públicos é sinônimo de qualidade de vida e também segurança, pois o contingente de pessoas garante os “olhos nas ruas”.

No entanto, o grande problema de Teresina, é que a cidade segue o oposto desta ideia, pois além da centralidade nos veículos automotivos, a capital é péssima para os pedestres.

A grande maioria dos teresinenses não se sente confortável andando à pé pela cidade. E antes fosse apenas o calor, o grande problema é a falta de segurança, as ruas vazias, calçadas estreitas, quebradas e ambientes nada convidativos para bater pernas. Diferente daqui, cidades modernas se preocupam com os pedestres e vemos ruas lotadas de pessoas em horário de pico, seja passeando ou indo ao trabalho, não apenas dentro de seus carros ou espremidas dentro de um ônibus lotado e quente.

Uma outra lição extremamente relevante é valorizar o planejamento descentralizado e respeitar as ordens espontâneas que partem da vida urbana. Já percebeu como as pessoas que vivem mais próximas do problema são as que possuem menos poder de resolvê-lo? O maior exemplo é essa crise atual no transporte coletivo.

A CPI na câmara se esforça para colher depoimentos e escutar empresários do setor, além de sindicalistas e trabalhadores. A relação trabalhista, embora seja importante, é o centro de um debate que continua a nutrir os mesmos problemas. Por isso, valorizar o planejamento descentralizado significa, em sua essência, trazer os usuários do transporte para o protagonismo das discussões e fortalecer iniciativas que favoreçam o empreendedorismo intermodal, ou seja, abandonar a ideia de que apenas um consórcio de empresas tem direito de oferecer serviços de transporte.

Jane Jacobs foi uma teórica qualificada como ingênua por tecnocratas de seu tempo, mas sua obra ganhou ainda mais relevância justamente diante do fracasso das ideias daqueles que a tacharam assim. Fica cada vez mais claro que o nosso futuro está atrelado a cidades mais eficientes em todos os aspectos, como organização dos espaços, condições de trabalho e renda, ambiente de negócios, eficiência energética, destinação adequada de lixo, saneamento, tecnologia e muito mais.

É urgente repensar as ruas, parques, praças e paisagens urbanas em função da humanização dos espaços, desestimulando a ideia de se refugiar em locais distantes dos centros das cidades, prejudicando o adensamento e criando um urbanismo difuso. Por conta disso, Jacobs segue sendo uma referência inevitável.

Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do Custo Piauí.

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Mayra Regina
Sobre Mayra Regina
Desde 1996 fazendo mau uso das palavras. Gosto de café, mercado financeiro e gestão urbana.
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