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Este texto é um ataque

“Este livro é um ataque aos fundamentos do planejamento urbano e da reurbanização ora vigentes”. Esta é a primeira frase lançada por Jane Jacobs em seu livro mais famoso: “Morte e vida das grandes cidades” (título em português).

28/06/2021 15h26 Atualizada há 1 mês
Por: Redação
Divulgação PMT
Divulgação PMT

 

Jacobs foi a primeira autora que li dentro do tema de urbanismo. Ela não era arquiteta e urbanista de formação, mas uma jornalista autodidata que viveu intensamente a vida urbana e aprendeu sobre as cidades sob o ponto de vista mais importante de todos: o dos moradores.

São as pessoas que circulam diariamente nas ruas, andam em ônibus, carros, ciclovias, calçadas ou praças, que verdadeiramente conhecem a vida urbana e sabem o que funciona melhor. A beleza da obra de Jacobs consiste justamente no questionamento a padrões de urbanização que se repetem em inúmeras cidades, apesar dos erros e da falta de bons resultados. Não por acaso, tornou-se a obra mais influente do pensamento contemporâneo sobre cidades, além de um livro verdadeiramente apaixonante para quem ama a vida urbana.

Tendo em vista a CPI do Transporte Coletivo que acontece na câmara de vereadores de Teresina desde o dia 18 de junho, é possível que nas próximas semanas o tema mais recorrente desta coluna seja urbanismo, mais especificamente a parte de mobilidade urbana e transporte coletivo.

Tenho acompanhado a CPI através do YouTube, mas ainda preciso terminar de ver algumas sessões. Até o momento, a impressão que fica é que a CPI não se interessa pelos assuntos que realmente importam em meio à crise vivida pelo transporte coletivo na capital, que não é a primeira e, provavelmente, não será a última.

É importante frisar que a CPI tem colhido depoimentos de líderes sindicais, empresários do segmento, trabalhadores e demais envolvidos. Os atrasos de pagamento e as possíveis negligências das empresas do consórcio de ônibus que atuam na cidade devem ser apuradas e devidamente solucionadas.

Sendo assim, o que pretendo destacar aqui são os aspectos estruturais que fazem com que nossa mobilidade urbana seja ineficiente e obsoleta, apesar de Teresina ser uma cidade ainda jovem e que poderia se ocupar de políticas urbanas que antecipem desafios já vividos em grandes metrópoles, criando uma infraestrutura básica mais diversificada e adaptável.

A grande maioria das cidades brasileiras, incluindo a nossa, foi moldada em torno de uma forte cultura rodoviarista, na qual o carro particular aparece como grande protagonista e como a principal alternativa de mobilidade. Além dele, temos também os ônibus, que aparecem como a principal alternativa de transporte coletivo, mas que também são veículos motorizados e moldados para as rodovias.

E quando falamos de alternativas de transportes, as coisas não se resumem a bicicletas, mas metrovias, hidrovias ou qualquer outro meio viável de locomoção, além de também ser amigável para pedestres, um outro elemento muito negligenciado nos planejamentos urbanos.

A diversidade é um aspecto importante, pois inúmeros fatores da infraestrutura de transportes e mobilidade são definidos com base em conflitos de interesses que favorecem grupos com grande influência política. Assim, aquilo que deveria atender à coletividade passa a ser pautado em torno de interesses individuais ou de alguns grupos de poder.

Qualquer política urbana deve ser sustentável, economicamente viável, acessível e segura. É por isso que Jane Jacobs valorizava o conhecimento local e o planejamento descentralizado, pois é a melhor forma de atender aos interesses da população, ao invés de valorizar o que fica “combinado” nas reuniões fechadas entre políticos e grupos que monopolizam a oferta desses serviços de mobilidade.

Jacobs demonstra que para participar dos debates e da construção da sua cidade, você não precisa ser um tecnocrata que ostenta diploma, embora o conhecimento técnico seja de grande valor.

Antes de mudar uma cidade, é preciso conhecê-la e saber onde mora sua vitalidade para, então, atacar os “fundamentos do planejamento urbano e da reurbanização” que prejudicam essa vitalidade e não trazem bons resultados.

Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do Custo Piauí.

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Mayra Regina
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Desde 1996 fazendo mau uso das palavras. Gosto de café, mercado financeiro e gestão urbana.
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